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Gosto dos telhados, mais do que das ruelas, a noite deitada parece-me um domo antigo, com as estrelas a ser minaretes. A noite é a minha companhia, é uma amizade sagrada, em que recebo uma coroa, quando passeio sozinho, espectro sem destino entre as gentes que se divertem, no interior e à porta dos bares, e a sinto ao meu lado, por cima, dossel ondulante, entre os entes e as coisas, raíz do mundo, debaixo dos meus passos qual manto estendido e à minha frente como um mastim fiel. Acredito que a noite me protege, sei que me protege, desvia o mal do meu caminho e dá-me força para enfrentar a minha dor.
Vem, criança rápida que atravessa o mundo e o silencia e alimenta-se do meu sangue, porque a noite é a Morte, deusa antiga e sábia, que viu nascer os deuses e os homens e é impiedosa com a vaidade e a beleza. Afasta-me do convívio, do calor das mulheres, dos afãs do tempo, é ciumenta com os seus filhos, ergue-se sombra feroz na minha sombra, veste-me, penteia-me, acaricia-me o rosto quando desespero, quando estou triste, quando me sinto estrangeiro a tudo.
Sou um exilado entre os homens, um errante, um pária, vagabundo de cada fragmento da minha vida e da dos outros, hóspede em viagem de tudo o que me tem sido dado, o amor e o mel, as camas alheias, cânfora, ópio e perfume, e até da bondade, dos convites para jantar, da preocupação desinteressada. Toda a minha existência tenho sido um pedinte que não pede, um órfão de tudo e todos, de mim mesmo e das casas que me deram tecto e nunca me foram um lar. Saio para o negrume, vagueio e tantas vezes perco-me, não consigo encontrar o caminho de volta e abandono-me nalgum lugar, habitado ou ermo, com o frenesi da música ou o turbilhão do nada, entre olhares ou para além das luzes e espero que volte a memória de onde moro, sentado sobre o esquecimento, com as minhas mãos magras e trémulas pousadas – contigo, ó Mãe –, a noite sempre a abraçar-me, tão juntos, o seu hálito de veludo negro com odor a leite, morte, trigo, fim, chuva, infãncia perdida e recomeço.
Fico quieto, cadáver maquilhado com elegância vestido, dentro da sua presença real, com os ponteiros atónitos e hirtos dos relógios, as vozes longínquas das raparigas, a nuvem de devaneios da felicidade suposta e o lamento do alquimista Turco nas páginas desfeitas a confundir-se com a minha angústia: «Permitam, ó espíritos da noite, que os meus cabelos fiquem brancos, devolvam a velhice aos meus ossos e que a minha carne enfim conheça a morte e a minha alma descanse!».
Lucifer's Kingdom, 67.