Quinta-feira, Novembro 26, 2009

CESARINY NA MORTE: PODEM APAGAR A LUZ


O poeta e pintor Mário Cesariny morreu a 26 de Novembro de 2006, de madrugada em sua casa, em Lisboa cerca das 5h30, aos 83 anos.


Face a face com a morte, Pessoa pediu os óculos, o pedante do Göethe mais luz; dentro deste mar negro da morte sem fim, que abafa a luz deste quarto, que sobe pela manhã e agita o terror entre as estrelas, acho que vou ficar calado e morrer apenas.
Podem apagar a luz.


Lord of Erewhon
Escrito em 26/11/2006 e publicado, com minha permissão, a 27/11/2006 no blogue
Crónicas da Peste. Também publicado no blogue O Bar do Ossian.




The Kingdom, 67.

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

GÓTICOS – DO MEU CADERNO DIÁRIO, XXII


A Brasileira, Joshua Benoliel, c. 1911
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PEQUENO VÓRTICE DA BACIA MATINAL

Tudo é um círculo, rostos, vozes, casas, como um turbilhão que arrasta as paisagens em redor. No centro está uma cadeira, onde, se fores capaz de ironia com o cansaço da existência, te sentarás. Tudo é espectáculo para o artista.


PEQUENA FARSA DA LOUCURA

O meu psiquiatra está ao telefone, faz-me um sinal com a mão, sento-me e reparo que o gajo tem um volume grosso de arte erótica, da Taschen, em cima da secretária. A trampa da conversa tem sempre que ter um começo qualquer. Odeio arte erótica, acho que não há uma única obra de erotismo explícito que não tenha o dom de me irritar. Serei misógino? Não pá, tu és é maluco. Como andam os escritos? As insónias têm sido produtivas?
Gosto deste velhote de sorriso matreiro. Acredita mais na sabedoria das putas do que na medicina mental.


DOS DIAS SEM COR

Encontro o professor de história. Com ele a conversa é sempre política e interessante – cofia a barba grisalha e dispara. O país, as eleições, o governo, é tudo uma merda e nada vai mudar. Lembras-te de quando os autocarros laranja andavam a matar gente? O governo resolveu: pintou-os de outra cor!
Ora aí está uma boa ideia. Uma vez que acredito na evolução do espírito, no progresso imparável da civilização e no archote eterno renascentista, não me vou pintar de outra cor.




MÉTODO INFALÍVEL PARA DEIXAR DE FUMAR

Na sala de espera uma miúda (emo? gótica cor-de-rosa?) mete conversa comigo. Eu sonho com homenzinhos chineses, desses das lojas, sabes?… Muito pequeninos, montes deles! Correm atrás de mim com sinos nas mãos. E tu? Eu, o quê? Com que sonhas? Eu não sonho. Adormeço, a ser uma pedra que fosse atirada para dentro do abismo. Escuridão absoluta, como se deixasse de existir. Tenho é muita dificuldade em adormecer. E não houves nada? Népia. Mas olha, acautela-te com os acólitos do Doutor Fu-Manchu… Eu não fumo. Já deixei essa merda, só me andava a fazer mal. Sinto-me melhor… E suspira, erguendo umas apetitosas mamas de lolita, que apagam a casa luxuosa não sei de quem, na revista de decoração de Setembro de 2007.


COISAS ESPALHADAS NA GAVETA

Vem para dentro do meu postal ilustrado, onde os sorrisos estão congelados na felicidade eterna. Aqui não há tempo, ninguém morre e não há noite nem dia. As duas figuras, entre a música das árvores antigas e um raio de luar… Na clareira ao pé do lago?…




GOTH LAND

O meu sonho maior é substituir este blogue por uma casita em Mértola sem acesso à internet. Mértola tem um pacto com a minha alma, é um eterno retorno, que vem de antes deste corpo e que não consigo dizer: é feito de silêncio, nobreza e paz. Um cântico paleo-cristão, que murmura entre os esqueletos dos cavalos godos e os astros flamejantes na noite que conduziram as caravanas dos nómadas.



Goth Land, 84.

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Sábado, Outubro 31, 2009

QUATRO ANOS DE HALLOWEEN *


Fernando Pessoa – Heterónimo, António Costa Pinheiro, 1978


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Depois, os dias, as noites, o tempo como um círculo de bruma a rodar no escuro, entre as sombras do bosque e a Lua que nuvens cinzentas apagam, depois, qualquer coisa por dizer, um abismo do verbo, poços nas palavras. Escrever é um paradoxo: um jorro de fala que procura uma conversa sem tempo e o mais solitário dos ofícios, um rumor de pedra calada. Escreve-se para ninguém, porque se atravessou uma porta para lá do mundo dos outros, e escreve-se para que algo da humanidade ainda inflame o coração.
No futuro nenhum solitário publicará um livro, os blogues glorificam a urgência de ser e nunca ser. Quatro anos é muito tempo. Este blogue assusta-me, ou como confessou Fernando Pessoa, Depois de escrever, leio...
______Porque escrevi isto?
______Onde fui buscar isto?
______De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
______Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
______Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...

Entre sombras, entre máscaras, os corpos e as árvores, este baile é a morte.

* Três Anos.



Goth Land, 83.

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

O CUBO INACABADO


Floating Cube: Alchemical Apparition, James Khasar, 2001
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A pureza de uma caixa vazia: quatro
Os lados brancos. Silêncio, é noite,
Os círios acesos afundam a brancura
Das paredes. O quarto. Uma cama.
Depois livros e folhas, depois a vida
De olhos abertos diante da morte…
O marulho das vagas, febril símbolo.
Não bastam a sabedoria, a solidão,
A arte. O desassossego espraia-se,
Para além da janela fechada, vazio
De um chão que defenda dos vivos e
De um tecto que defenda dos mortos.

O brilho desta cripta, silente, espera…



The Kingdom, 66.

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

OS QUE NÃO OUVEM


Transparency Study: The Golden Game, James Khasar, 2004
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Há quem se confunda com o jogo das palavras e o reflexo fugidio das montras com um espelho. Quando o absoluto é reduzido ao ouvido e à língua, tudo o que é transcendente ao mundo parece familiar, o lar passa a ser o reino e todos os livros parecem indicar um mesmo sentido. Este é o caminho do que abre muito os olhos.
O que caminha para além da escuridão cerra duplamente as pálpebras. Fecha-se ao vagido do mundo e fecha-se ao chamamento de Deus. Porque somente aquele que acordou sabe que o reino dos homens é uma trombeta de combate, nítido como o orvalho da manhã numa couve, simples como o pão e o mel, terreno como a brancura do leite.
 
 
 
The Kingdom, 65.

Terça-feira, Setembro 29, 2009

O CUBO DE JANELAS


The Clown Lion-Elephant Man, Klatuu Niktos, 2007
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1. NATUREZA MORTA DO ÓPIO

Da papoila o tridente de incenso
Onde é castiçal reluz o rubi
Da lâmpada acesa:
_______________A luz ocre
_______________________Caindo
_______________Em gomos de laranja,
_______________________Em curvilíneas taças.


2. A ÁGUA DO CÉU DOS OLHOS

___________É uma parede que fala,
_____Vermelhos flamingos pé ante pé.
Se duas rãs de prata saltam no céu,
_____Navegarei numa concha;
___________Entre as asas desta estátua,
_______________Dormirei o meu sonho:
___________A subir pelas hastes dos juncos
___________________Os palácios de gelo
Ou árvores atravessadas na estrada
_____Dentro de gotas de orvalho.


3. O COPO, O CUBO

____________________Pelo poço verde sombra
De informes substantivos, encerrados ecos, projecções
De planuras abstractas, oblíquas aguarelas
Da forma dos sonetos,
Tintas, ânforas,
Espelho de
Água?


4. IMPRESSÃO DO ANOITECER

De cima
_______Da escrivaninha
____________________A fita de luz
______________________________Alongando-se...



The Kingdom, 64.

Quinta-feira, Agosto 13, 2009

THE SICK ROSE *


Ilustração de Songs of Innocence and of Experience, William Blake, 1794












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THE SICK ROSE

O rose, thou art sick.
The invisible worm,
That flies in the night
In the howling storm,

Has found out thy bed
Of crimson joy:
And his dark secret love
Does thy life destroy.



A ROSA DOENTE

Oh rosa, és tão doente.
O invisível rastejante,
Que esvoaça na noite
Na tempestade uivante,

A descobrir o teu leito
De purpurino gozo foi:
E o seu atro amor secreto
Como a tua vida destrói.


William Blake
Tradução de Lord of Erewhon

* Também publicado no blogue Nova Águia.



Lucifer's Kingdom, 76.

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Segunda-feira, Agosto 03, 2009

GÓTICOS – DO MEU CADERNO DIÁRIO, XXI


Fotograma do filme Metropolis, Fritz Lang, 1927
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METROPOLITANO

O caminho de um só não pede passagem ao caminho de muitos: um só não entope o trilho de ninguém. Por isso, filhos de puta que multiplicam a viscosa humanidade em bando, desviem-se – vai a passar um louco, que nada tem a perder, nem receia o admirável mundo eléctrico dos carris…


RUÍDO

Deus é um alarve, deveria ter envenenado a poesia – reservá-la aos mortos e aos errantes que dançam à beira do abismo!


NA ESPLANADA

Tarde de sol lisboeta, agora cada vez mais cheia de poseurs idiotas trajados de preto: desconversas sobre vampiros psíquicos, part-times em lojas, intrigas de fotolog e «grandes bandas» (metal satânico e electro pop de ir ao cu, nem uma de gothic rock!). Acho que vou passar a beber a bica noutro lado – e não digam que é maturidade; apenas bom gosto.


ESTATÍSTICAS A QUE SOU INDIFERENTE

Se a internet não abarrotasse de lixo fotográfico sadomasoquista e não tivessem inventado a blogosfera ocorreriam muito mais suicídios entre os Góticos.


DELÍRIOS

Há gente, gente a mais, talvez por isso se multipliquem, na carne e na esquizofrenia. A monstruosa gordura de protagonismo, a conspiração, a suspeita, o boato, um rodilho de sombras, labirintos em que o eco responde a si mesmo. A psicose determinista do destino alardeado: um Chinês descarrega o autoclismo em Pequim e essa cagada em três actos acabará por ser o fim do mundo…
Tu já o sabias, Mestre, na tua Buenos Aires de sonho: Los espejos y la cópula son abominables, porque multiplican el número de los hombres. O nojo que é o amor em lábios sôfregos e perdidos; os narcísicos exíguos espelhos redondos, cobardia de quem não tem visão para um rosto no rosto. Tlön, Uqbar, Orbis Tertius!


PÉTALAS

Sei que nunca me abandona esta coroa, é assim desde que trucidaram Orfeu: a fronte sempre fresca, um júbilo no peito, a sensação de montar um selvagem cavalo branco, com a ventania nos cabelos e um sol impávido depois da morte.




Ghost of a Flea, William Blake, 1819-1820


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MANTRA DA GINÁSTICA SUECA

Concentra-te no fantasma de uma mosca e chega a uma forma de indiferença em que o desprezo seja sem esforço nem azedume: o übermensh é a superação dos vícios e das virtudes.



Goth Land, 82.

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Quarta-feira, Julho 15, 2009

ROWAN DAY *


Rowan Tree (Sorbus Aucuparia), Eeno, Co. Wicklow, Ireland, 2008




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Para a Antígona



PRECE A ROWAN

The spells were vain,
The hag returned
To the Queen in a sorrowful mood,
Crying that witches have no power
Where there is Rowan tree wood.


«Laidley Wood», traditional Celtic ballad


Sagrada, sagrada, ó sussurrante,
Bebedora de sangue e seio de sangue,
Mãe de tudo o que é verde, que do trovão
E do teu ventre nasceu, guardiã
Das terras dos homens, protege-me!
Com o teu sangue o druida , o bardo
Canta, o guerreiro inflama-se qual brasa!
Que o meu sangue se possa erguer, vívido,
Assim na morte, e a minha alma
Possa repousar, Mãe, possa repousar,
Como uma sombra quieta, no fresco
Segredo dos teus braços.


Lord of Erewhon

Também publicado no blogue
O Bar do Ossian.



* O Dia de Rowan, ou da Árvore de Rowan, é um dia sagrado para os Célticos e, nos nossos dias, apenas para alguns Nórdicos (Dia de Rauni na Finlândia). Rowan é a Árvore da Vida. «Rowan» tem origem no Norse, «raun» – antiga língua germânica comum aos povos da Escandinávia e às suas colónias por todo o mundo durante a Era Viking –, «runa», este termo deriva do Proto-Norse – língua comum aos germânicos mais a Norte até ao Séc. VIII –, «raudnian», que significa «tornar-se da cor vermelha», contexto semântico que se embricou com as bagas vermelhas da árvore Rowan e a mudança de cor que a folhagem ganha no Outono. O Culto de Rowan acabou por se misturar aos cultos druídicos, ninguém sabe exactamente quando e como, mas só pode ter sido pelas incursões Vikings na Escócia, onde a pregância cultural do mito é hoje maior, e porque estas árvores sempre foram abundantes nas Ilhas Britânicas, nas quais a árvore adquiriu diversos nomes fabulosos: «Dama das Montanhas», «Árvore Sussurrante», «Bosque Circular», «Árvore da Runa», «Ajudante de Thor», «Árvore da Feitiçaria», «Expulsa Bruxas», etc. No Gaélico chamam-lhe «rudha-an», «a vermelha». A árvore existe também no Norte da América e nas províncias canadianas de Newfoundland & Labrador e Nova Scotia, zonas de colonização Viking.
A importância religiosa, mistérica, mística e esotérica da Árvore de Rowan é sem fim: os cajados dos Druidas eram feitos dos seus ramos; as suas folhas são usadas em feitiços e curas; são colocadas em vasos para protecção das tempestades (na mitologia dos Finlandeses antigos, a deusa Rauni, quando viu que a terra era um deserto, desceu dos céus, copulou com Ukko, o deus do trovão, que a emprenhou com um relâmpago poderoso, e gerou todas as plantas, flores e árvores); é plantada nos cemitérios para proteger as almas dos mortos de serem assombradas; runas são feitas do poder da sua madeira; as quintas e os currais são protegidos com áleas destas árvores, que se tem fé protegerem das bruxas; no Canadá, na Finlândia e na Suécia o número das suas bagas continua a ser tomado como augúrio pelos camponeses para a quantidade de neve a cair em cada Inverno, e o resultado da produção frutícola augúrio para as condições climáticas do Verão; na Finlândia ainda se acredita que se a árvore florir duas vezes será excelente a colheita de batatas e haverá mais casamentos no Outono; na Suécia, que se a árvore perder a cor e ficar pálida o Outono e o Inverno trarão doenças.
Presentemente a espécie é mais numerosa no Norte e Nordeste da Escócia, onde os designativos «Dama das Montanhas» e «Árvore Sussurante» (porque ensina os segredos) a nomeiam. Não esqueçamos que estas costas sempre foram sujeitas a incursões Vikings, sendo os actuais Escoceses (em parte) deles descendentes e de Celtas que migraram da Irlanda. Na Escócia ainda se faz vinho das bagas, vinho que era usado pelos Druidas para aumentar o poder da vidência; as folhas e as bagas eram usadas em incensos com o mesmo propósito. Na América do Norte chamam-lhe «mountain ash», porém a Rowan não é um freixo (fraxinus), é uma sorbus aucuparia, da ordem das rosales, família das rosaceae, ou seja, uma parente das roseiras… eixo do mundo. Das suas bagas ainda é feita compota, consumida pelos competidores em jogos tradicionais celtas.
Todos os Célticos lhe têm grande devoção, mas esta permanece mais forte entre os Escoceses, apesar de os Nórdicos de modo nenhum a terem esquecido: em Vardø (o lugar em que o Oeste encontra o Este), ilha no mais extremo Nordeste da Noruega (70° 21' N, 31° 02' E, mais a Este que São Petersburgo, Kiev e Istambul) a árvore resiste, impressionantemente, ao clima árctico. Sete árvores foram plantadas em 1960, uma sobreviveu, tendo florido em 1974 e 1981, e por fim sucumbido ao frio Inverno de 2002. Duas novas árvores foram plantadas, que os Noruegueses protegem durante o frio maior, erguendo uma casa em seu redor, aquecendo-as e alimentando-as. São as duas únicas árvores da ilha.

Sagrado seja este Dia de Rowan! Que os espíritos da noite vos protejam e a sombra da morte nunca vos toque! Hoje é também Quarta-feira, Mittwoch, Wednesday, dia de Odin (Woden ou Wotan), um grande dia para o trovão…


P. S. Para quem queira cuidar de uma
árvore Rowan…



The Kingdom, 63.

Sábado, Julho 11, 2009

O ÚLTIMO VIKING


Fotograma do filme The 13th Warrior, John McTiernan, 1999




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Estou a rever (mas não há verbo que diga este retorno, quase igual ao da releitura do Beowulf) o The 13th Warrior/O Último Viking. Por vezes a vida é boa, quando a noite apaga o mundo e estamos a sós com a nossa alma. Cigarros, aguardente velha, Os Factores Democráticos na Formação de Portugal de Jaime Cortesão, na edição de 1978, com um belíssimo retrato do autor na capa pelo lápis de António Carneiro, pousado na cama com algumas folhas soltas, rabiscadas de notas, raízes de poemas, coisas que me atraíram a atenção durante a semana que finda, quiçá demasiado inconspícuas para o verso. Lá fora está um silêncio de túmulo, os bares já fecharam, as vielas regressaram à sua pureza e aguardam que as venham livrar do lixo.
Por vezes a vida é boa, quando a noite apaga o mundo e ficamos a sós com os nossos sonhos e o bater do coração. Com os nossos sonhos…. O meu herói é o Árabe, todos os solitários já sem pátria, desde que li em criança O Último dos Moicanos de James Fenimore Cooper.
– «Odiiinnnn!!…»



The Land, 54.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

FERNANDO PESSOA, O AFRICANO *


Foto oferecida pelo poeta à Tia Anica (Ana Luísa Pinheiro Nogueira), Janeiro de 1914, com a seguinte legenda: Representação visível de si-próprio.

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«Estranho só o raro, e raros são os mortos, que um morto fale, aos medíocres soará impossível, mas eu caminhei sobre as águas do Império, vi Portugal de longe, primeiro num sonho, uma memória de criança magoada, uma saudade que revelava o meu nome. Eu caminhei sobre as águas e voltei, a uma Lisboa na barriga da névoa, cada vez mais próxima, em declínio, inerme no tempo, em nada assemelhada à talha onírica, esquecida de si, cheia de sonâmbulos, de fala-sós, de intelectuais de pacotilha e poetas preocupados com sentimentos. As ruas, um lixo, a universidade, um tédio, as mulheres, uma anedota, os amigos, inconsequentes.
Vivo na fronteira dos dias sem Portugueses, seremos um féretro, os homens do Império, sem o «fardo do homem branco» que tanto abate os Ingleses, o nosso fardo é o fantasma de tudo incendiado na alma, o fardo do que poderia ter sido e não pôde ser.
Na minha vida agiganta-se o último lamento do que o Império foi, e o pórtico do que o Império será, não este, podre já nos livros de História, mas aquele que alucina a alma no dentro tormentoso do Oceano, com as vagas altas em redor, num país de pinhais sem chão na palavra. É das águas, foi das águas, é das águas e será, porque este Leviatã informe que me assombra é o porvir, para onde a ruína do que pôde ser, o que ergueu do pó o negro e o índio, o mouro e o godo, mudará a uma pele de prata além da alquimia, azul que não há no céu, uma vasta terra indescoberta.
Não terá um sinal nos mapas, uma rota, da luneta no convés não se verá, e é, é como o que agita a espuma nas praias com um gemido cavo do abismo do mar, debaixo de todos os luares, as serras invencidas e as minhas mãos trémulas que sabem já o que nem sonho e serei, fundamente serei, porque eu vim sobre as águas e vi o continente último, feito da carne do vento e do espírito, com um coração de escravo aberto em poços inesgotáveis de esperança.
Portugal não é o país que sou, é o Império que fui. O que serei não mancha ainda as páginas dos atlas, sei que terá palmas e dança, a mirra e o vinho, a cânfora e o vinagre, a Índia, a África, o Brasil, o norte, o sul, o leste e o oeste onde a minha alma de africano encontrará descanso um dia.
Fernando Pessoa,
Lisboa, 29 de Agosto de 2008.»

Lord of Erewhon


* Previamente publicado no blogue Nova Águia
e republicado, com minha permissão, no blogue
Crónicas da Peste.



The Kingdom, 62.

Terça-feira, Maio 26, 2009

THE PHANTOM TIME


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To Boris Indrikov



There is no time; the wind blows,
Said the fairies; the frog told
A tale of pearl skin men; long neck
White horses sang a spell, awakening
The knights in crimson armours. At war
With dark ages and the veils, alive
In this storm days, all we are
Brothers in sword, blood and truth.


Lord of Erewhon






The Kingdom, 61.

Quarta-feira, Maio 06, 2009

LUÍS DE CAMÕES *


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LUÍS DE CAMÕES

Camões, alone, of all the lyric race,
Born in the black aurora of disaster,
Can look a common soldier in the face:
I find a comrade where I sought a master:
For daily, while the stinking crocodiles
Glide from the mangroves on the swampy shore,
He shares my awning on the dhow, he smiles,
And tells me that he lived it all before.
Through fire and shipwreck, pestilence and loss,
Led by the ignis fatuus of duty
To a dog’s death – yet of his sorrows king –
He shouldered high his voluntary Cross,
Wrestled his hardships into forms of beauty,
And taught his gorgon destinies to sing.



LUÍS DE CAMÕES

Camões, somente, de toda a raça lírica,
Nascido em escura alba de desastre,
Pode olhar um soldado raso face a face:
Encontro um camarada onde supus um mestre:
Dia a dia, enquanto fedorentos crocodilos
Deslizam dos manguezais na margem pantanosa,
Ele partilha o toldo do meu dhow, e sorri,
E diz-me que viveu tudo isto muito antes.
Por fogo e naufrágio, pestilência e perda,
Arrastado pelo fogo-fátuo do dever
A uma morte de cão – porém de seus males rei –
Ergueu altaneira a sua voluntária Cruz,
Amassou os seus penares em formas de beleza,
E a sua Górgona domou para cantar destinos.


Roy Campbell (Durban, 1901 – Setúbal, 1957)
Tradução de Lord of Erewhon

* Também publicado no blogue
O Bar do Ossian
e no blogue
Nova Águia.



The Land, 53.

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Sexta-feira, Abril 10, 2009

GÓTICOS – DO MEU CADERNO DIÁRIO, XX


Fotograma do filme Metropolis, Fritz Lang, 1927




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PRECIPÍCIO

A minha vida é um sonho como uma avaria numa máquina. Os dias são de escuridão, com luzes de circo a fingir de estrelas, leitos-jangadas entre bares, faces de um segundo, espectros de algodão doce e um abismo hiante no final da película dos corpos. Olha, não me leves a mal, mas não largues as minhas mãos agora.


INTERVALO

The boy with a thorn in his side / Behind the hatred there lies / A murderous desire / For looove… Apesar do escarro que lhe atinge o casado comprido de cabedal negro, porque Deus é ubíquo e todas as bocas são suas.


TRINDADE

Agora estamos sentados, a festa terminou e o nevoeiro metamorfoseou-se no silêncio comunicante das almas. As cortinas da noite abrem-se e quereríamos que o mundo fosse mais que paredes e muralhas, ou esta reunião de cadáveres que desfilam. Olho para os vossos dedos longos, as unhas pintadas, os lábios, para a beleza como um evangelho de mortos-vivos – e acredito na ressurreição dos gatos.


ENTRE PAPÉIS

Não sei que dizer. Um dia a minha vida foi. Um dia deixará de ser. As minhas feridas foram lavadas e conheci corações iguais. Isso basta.



Agostinho da Silva como Mafdet-Cernunnos (colagem), Klatuu Niktos, 2009















RETRATO EM MOLDURA VELHA

Não tem importância, porque não estamos sós, Mestre; a palavra é levada pelas tormentas como sémen de dragão: o veneno escolhe somente os que lhe resistem – não há justiça maior. Por isso, dorme tranquilo, não é herdeiro quem quer mas guardião quem pode, à geada e ao sol, no festim e na morte, na alegria e no sofrimento.


DANÇA

Os meninos em roda. Os meninos em roda, tão solenes, dentro do anonimato azul celeste, aguardam, olham para o centro e aguardam. O eixo; os eixos todos, que não podem fechar-se no silêncio, porque os abismos rugem… A terrível e temível fome juvenil de sabedoria. Escutem, irmãozinhos, alguma vez roubaram figos ao luar?


ESCRITO NO FOGO

Não há politeísmo, há polilatria. Não há paganismo, há Um Deus coroado de rosas. Não há Bem e Mal, há o Mal a ser a couraça implacável do Bem e o Bem que recobre o Mal com vestidos de cobardia. Tudo é abismo, subam acima, lume. Nada está separado, não há Mestre e Discípulo, não há Eu e Tu, porque somos Legião.


PROFECIA

Toda a estupidez será castigada, porque é inveja da beleza e do asseio que vestem os raros.



Goth Land, 81.

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Sexta-feira, Março 20, 2009

O QUE ACENDE OS CÍRIOS


The Fall of Lucifer, Gustave Doré, 1866, illustration of Milton's Paradise Lost

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Tragam-me para dentro de mim, como um cão se refugia num buraco. Duas vezes a morte é um nascimento, de noite o ancião e na manhã seguinte a criança a correr no alpendre. A minha vida não é mais inferno que a de ninguém. Poderei sempre alegar loucura, enquanto a sombra viva agita os candeeiros nocturnos, ó transmutam-se, são chuveiros do espírito, com as línguas de fogo no ar, coroa: o meu rosto rejuvenescido em todos os espelhos, a minha caveira em todos os túmulos, as minhas mãos enluvadas, enlutadas, as minhas mãos que não conhecem a morte. A vida duas vezes é a mais estranha das dádivas. Caminho para dentro do coração das trevas e a minha alma arde. Canta, canta para mim agora, Senhor do Mundo.



Lucifer's Kingdom, 75.

Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

TARDE DE CHUVA


The Pond-Moonlight, Edward Steichen, 1904






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O rio corre dentro de mim, porque há um poder da palavra e porque toda a reformulação literária da existência é um pranto no tempo. O rio corre e passa, e passa a correr dentro de mim e depois são as palavras como água a vestir-me da miragem da eternidade. Confundem-se as lágrimas da terra com a palavra lágrima e todo o meu pranto abandona a dor, para ser este caudal na página.
Tenho um rio dentro de mim, este que corre a meus pés, pelo mesmo encantamento mágico que faz chuva no entardecer eterno da minha alma. O rio detém-se um pouco, porque um entardecer eterno é um quadro idílico, um instante imóvel, paradoxo erguido no tear da linguagem. Na sua pantalha negra e rápida o rio começa a pensar, torna-se vago, troca de lugar com a noite meditabunda.
As águas de baixo, as águas de cima, tudo confundido, o antes do Génesis, do mundo e da alma. Importa tanto aos passantes distinguir a chuva de cima da chuva de baixo, meter ordem no mundo, não esquecer o guarda chuva e ser pontual nos encontros, principalmente quando as mesas dos cafés se tornam a promessa de uma porta aberta quando a cidade apaga as luzes. Mas o poeta é uma criatura sem abrigo, devorado pelo dilúvio, com a beleza de um rio estendido debaixo da chuva a fechar todos os caminhos.
Aqui sento-me na mesa que não há, com um guarda chuva de palavras, no júbilo cruel de não estar nunca onde me esperam. O rio corre dentro de mim, e agora chove mais, assim que pára de chover.



The Land, 52.

Terça-feira, Janeiro 20, 2009

AURORA


Moonlight Night, Nikolai Platonovich Andreev, 1924
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O odor de madeira verde, a humidade longe
Dos bosques na janela, os jornais e o café.
A presença residual dos objectos – mais do vazio
Que nossa. O Inverno rodeou a casa e lavou a luz.
Olham-te os móveis e os lustres e os lençóis
Que amortalham na vida e na hora final.
Sobre tudo isto que é nada, o falcão grita.
Sobre tudo isto sabes que partirás com os astros,
À alba, que a tua vida é incomensurável.



The Land 51.

Domingo, Janeiro 11, 2009

FILHOS DA ESTRELA


David Slaying Goliath, Peter Paul Rubens, c. 1616

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Senhor, o coração gelou-se-me, tive medo, o ventre dela brilhava no escuro, depois a criatura brincou com as nossas crianças, havia bondade nos seus olhos e as mãos cantavam, o povo esqueceu até que o tambor soou. A criatura juntou-se aos exércitos, era ainda um rapaz e os cavalos estremeciam na sua presença, bebia o sangue dos mortos.
Eu vi estes prodígios, Senhor, entre homens e Anjos combati, deixa que este servo Saul por fim descanse, sobre esta lâmina, na terra que guarda os ossos do pai do meu pai, que a morte me abrace como uma mãe e eu possa de novo ser pastor.



Lucifer's Kingdom, 74.

Terça-feira, Dezembro 30, 2008

ISRAEL


Lutte de Jacob avec l'Ange, Eugène Delacroix, 1861
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Nada: por um pedaço de pão seco. Na terra
Gretada: por uma clareira entre o sangue. Água,
Água do espírito, que nos ilumine, cercados
Por todas as formas de morte. Gritei no deserto:
Que D*us me ouça, desde as ruínas de Ur à casa
De meus pais. Mesmo que eu não volte, Anjos
Nos oásis me dessedentem, mesmo que D*us
Me esqueça, matem a sede da minha alma,
Alguma piedade desça do Céu sobre nós, e
Sobre eles, que nos matamos em solo sagrado.



The Kingdom, 60.

Terça-feira, Dezembro 23, 2008

DEPOIS DO OITAVO CÍRCULO, OS MATRICIDAS


In Search for Cain, Samuel Bak, 1999
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Os meninos que transportam a árvore no vale gélido; não deve quem os consegue ver perturbá-los na sua senda, caminham há muito e os selos abertos obrigam a que tenhamos por eles piedade. Carregam-na como se fosse um lar, em cima dos ombros frágeis e tudo em redor é negrume, deserto e frio. São duas pequenas sombras em farrapos e levam a árvore, levam-na por companhia e esperança, com as faces lívidas junto ao verde morto; aparentam ter dez e seis anos, com mãos pequenas, demasiado esguias e ossudas. O mais velho segue à frente, a segurar o tronco, e o mais pequenito, mas forte e feroz, que incita o irmão a continuar, segura a copa bicuda com a morte suja de neve numa coroa em volta do rosto esfolado, os olhos fixos, acesos.
Não é possível dizer-lhes a raça mas pertencem à espécie dos homens, a algum povo antediluviano de que não há mais memória. Tudo é deserto e treva, tudo é gelo e neve e solidão, transportam a árvore, transportam-na e vê-los é uma provação do horror, um mistério de que não se pode falar. Tremem, tremem mais quando sentem que não estão sós, e o mais velho olha então sempre para o mais pequeno, vira a cabeça para trás por entre os ramos num movimento estranho e fica-se com a certeza de que chamar-lhes crianças é uma ilusão do afecto humano: a boca abre-se-lhe num ululo arrepiante, um aviso, e o mais pequeno agita a carne ferida e secunda-o num grito onde se sente uma fúria superior à soma última dos males e dos ódios.
Possam chegar, possam chegar, neste vale tremendo proibido aos vivos possam chegar, por tudo o que é piedade nos Anjos e nos homens possam chegar, com a sua árvore e a memória sangrante de terem sido meninos com dedos e lábios possam chegar, com carne de prata e um coração pulsante e alegre possam chegar, que haja um lugar, um destino, um fim na sua errância, que possam chegar e todas as estrelas se iluminem no céu desse dia, de novo vejam pássaros, rios, flores e todo o sofrimento e toda a solidão e toda a morte cessem.



Lucifer's Kingdom, 73.

Segunda-feira, Dezembro 08, 2008

BRAVE NEW HELL

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Outros Tempos, Boris Kossoy, 1970

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Para Ezra Pound



Tirésias na mesa de operações. De branco, a morte fecha-lhe os seios, num frasco, entre crucifixos e urina. Vendam-lhe a alma com olhos azul-claros, perfeitos, arianos. Baptizam-no de Domingo, a um Sábado.



Lucifer's Kingdom, 72.

Sábado, Novembro 29, 2008

MEDITATIO


Ezra Pound visits the gravesite of James Joyce in Zurich, Horst Trappe, 1967
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MEDITATIO

When I carefully consider the curious habits of dogs
I am compelled to conclude
That man is the superior animal.

When I consider the curious habits of man
I confess, my friend, I am puzzled.



MEDITATIO

Ao considerar com zelo os peculiares hábitos dos cães
Sou forçado a concluir
Que o homem é o animal superior.

Ao considerar os peculiares hábitos do homem
Confesso, meu amigo, fico perplexo.

Ezra Pound
Tradução de Lord of Erewhon


The Land, 50.

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Sábado, Novembro 15, 2008

ENCONTRÃO À SAÍDA DA NOITE


The moon... is so beautiful tonight,
Jenni Tapalina,
2005
















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A clavícula, dizem-na mágica, tenebrosa, um escrito da treva, mas que dizer do que se esconde de terrivelmente humano na noite, desses outros ossos que dão forma à carne e prendem o olhar à pele, com um abismo clamante no eixo túrgido de um corpo erguido? Derrubar-te, derrubar-te para que termine o desequilíbrio, a dança inquietante à beira do precipício da minha masculinidade ameaçada e desfazer todas as rosas, todos os vestidos, numa revoada de pétalas, de um salto. Tornar-te sem poder como um cadáver, que prendo ao chão num júbilo de fera. Não deverias cantar agora, nem brilhares os lábios debaixo da Lua – estátua tumular, quieta e muda e indiferente ao simples passar de um desconhecido. Ou os esqueletos frios, no seu silêncio de mármore branco.



Goth Land, 80.

Sexta-feira, Novembro 07, 2008

THE FUNERAL OF HEARTS (LOVE IS KITSCH)


Angel, Nina Kandelaki, 2007




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§. Tudo morre dentro de nós, sem lápide e história: abismo mudo, que ninguém acende mais, nem sequer como um círio num velório.



Goth Land, 79.

Sexta-feira, Outubro 31, 2008

TRÊS ANOS DE HALLOWEEN *


Waiting out a heavy rain storm in my car because I didn't have an umbrella, Mike Lee, 2003
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Para onde vão estes rapazes, de grandes chapéus cónicos e faces pintadas de branco? Depois da outra esquina, ou da outra, talvez esteja o túnel do tempo, que liga todas as noites, todos os instantes perdidos, todos os lugares significativos e os rostos fugidios por entre todas as chuvas pretéritas.
Chove. Os rapazes riem e caminham com um orgulho estranho, são cinco e dois deles pertencem já ao reino dos mortos, isto aconteceu há mais de vinte anos, em Portugal ninguém celebrava o Halloween. Escrever é um tributo aos mortos, um combate contra o vazio.
Cruel, ingrato, injusto que as ruas, os empedrados e as paredes das casas não gravem lápides. Gostava muito de voltar a ser um dos cinco rapazes, de sentir os verdes fusos da juventude a iluminar-me a alma, de pintar a face de branco como se isso fosse um grito, um poema, uma revolução pessoal num quinteto de trevas.
Os cinco rapazes, de grandes chapéus cónicos e mãos famintas. Chove. A minha vida passou, os amigos morreram ou foram devorados pelo mundo, só eu resisto, com uma raiva de menino, dentro de um túmulo de sonhos calados.
Três noites, um nascer do sol, três anos, a chuva, o rosto dos mortos a sorrir com lábios secos na última esquina. Tudo é uma página que não acaba – uma boa frase para deixar em suspenso a incompletude. Esperem por mim.

* Dois Anos.



Goth Land, 78.

Sexta-feira, Outubro 24, 2008

A ESMERALDA: PEDRA OCULTA


Alone, Samuel Bak, 1994


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Não direi o teu nome, de vermes cegos guardado fica o fogo oculto. És a jóia no abismo do mar que é o céu, és o abismo do céu no mar dentro da jóia que arde no meu coração, és o sangue, o ar, o tesouro da palavra que me sustenta na prisão do mundo.



Lucifer's Kingdom, 71.

Sábado, Outubro 11, 2008

INTERVALO


Girl, Kimbo, 2006
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O coração atravessado por um pássaro, estamos
Quase vivos antes da morte. Em tudo há um túmulo,
Nos teus olhos, boca. Como num naufrágio, o vento
Ergue escombros contra escombros com a espuma.
São tão irreais os dias, as noites, o tempo
Devassa-nos. Escrevemos na areia da praia antes
Da vaga que se abate. As luzes da cidade tremem
Por cima dos corpos que enchem as ruas apertadas,
Os lábios movem-se, há um desespero de fala
No silêncio, o das conversas sobrepostas, entre
A dor, o álcool, o desejo. Sombras e esqueletos.
A morte a rir-se no espelho da tremenda miragem
Das mãos. Nada, a não ser guardarmos o tesouro
Que ainda canta dentro de nós. Ou geme, ferido.



Goth Land, 77.

Domingo, Setembro 28, 2008

CRÓNICAS DO OCULTO – AMAR O HORROR




Por cima dos telhados da estação de comboios há um pau preso a uma corda num poste telefónico, amiúde o vento faz o pau bater no poste, que também é de madeira. A repetição espaçada e sem significado deste som traduz toda a inutilidade da vida e acorda em mim não sei que angústia, que vontade primordial de nunca ter existido: é um rasgão. A chegada do comboio devolve a minha alma a um corpo sentado, o meu. O horror de Joseph Conrad mas também a memória de um filme em que quem se apodera de uma determinada pistola é devassado pelo Mal. Jorge Luís Borges no Zahir falou disto, de como o achar de uma pequena moeda se transforma no horror de uma vida. Pode estar em qualquer lado, num pedaço de matéria, ao dobrar da esquina, num rosto, numa palavra, o rasgão que nos afasta da familariedade do quotidiano e mergulha a alma no terror absoluto, olha-se em volta e de repente tudo é estranho, o mundo um suplício sem esperança e toda a treva assalta o coração e aperta-o. É um terror somente comparável a morrer, a atravessar a morte por dentro da asfixia da carne, do cadáver que arrefece e do sofrimento atroz. Tenho morrido em vida mais vezes do que me deveria permitir.
Em La Sagesse du Sang, obra cuja primeita publicação conhecida data de 1710 em Paris mas escrita um século antes, H. Ombre presta homenagem a outro homem sombra, o grande alquimista da Istambul do século XVI, «oculto entre os minaretes, nem foi muçulmano nem cristão nem pagão, mas um antediluviano renascido», e depois, referindo-se aos erros da magia, apresenta um comentário daquele que apenas assinava O Discípulo ao Ghâyat al-Hakîm fi'l-sihr, curiosamente na tradução latina do século XIII que circulou na corte de Afonso X, o Sábio, rei de Castela e de Leão, Picatrix, apenso ao capítulo 7º do Livro II, na parte concernente ao poder dos talismãs – traduzo do Francês –, «confiar que os talismãs nos poderão dar poderio sobre os Anjos e os Demónios é tão infantil como a criança que acredita ser capaz de beijar o seu reflexo na água. O maior poder de um mago é polir as cinzas, reintegrar a carne e amar o horror, sem nojo, com paixão vera, assim fosse o Abismo virgem e pura donzela». Mesmo sem a possibilidade de recorrer ao Grimório de Istambul (Salamandra de Prata), que muito lunático diz possuir sem provas concludentes, as referências de H. Ombre ao alquimista Turco são evidentes do seu conhecimento da obra e a mensagem inequívoca: o reconhecimento do Inferno neste mundo é a marca da mestria e da proficiência mágica, o neófito enlouquece quando o véu se rasga, porém o mago negro aceita o horror, o bem, o odor das rosas e o fedor da peste no mesmo estrado de pó e estrelas. Os homens alumiam as cidades porque vivem dentro da morte. A sabedoria é o círio aceso que guia a humanidade – tudo o mais não passa de superstição e treva.



Lucifer's Kingdom 70.

Domingo, Setembro 14, 2008

O CÍRIO ACESO DENTRO DA BOCA


Untitled, Gottfried Helnwein, 2005
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Com as luas acima dos dias proibidos, estes flocos do brilho das estrelas e do luar nos regatos e no vento, escrevem o pergaminho, sopram a loucura celeste ao ouvido dos fetos, alimentam pela voracidade do sangue todas as crisálidas com o crepitar de um grito, a sabedoria, o desejo, a liberdade, porque o seu reino é uma fome alada que atravessa as casas. Não há paz, não pode haver paz, porque é o cadáver da vida que alimenta os jantares de família, a benção dos templos, o amor em calabouços por uma montra de decência burguesa, os recém-nascidos de olhos amedrontados a quem afogam a alma em água falsa, entre as mãos de sacerdotes impuros, inimigos da carne, inimigos do amor e da sacral, divina e libertada sabedoria teológica da língua que procura o sexo.
Tu és a fonte, o suor de Eva, os mananciais do Inverno que eternamente lavam o mundo, o ouro velho do Outono a vestir a rainha dos valados, as juvenis flores bravias inomeadas com que a Primavera rompe os cárceres glaciais e o fogo tremendo em que o Estio rejuvenesce a pele da serpente das noites mudas, quando o ermitério dos lençóis é o velame que transporta a febre da carne intocada à mortalha e à coroa da perversidade esclarecida dos mortos.
O discípulo reuniu as conchas, a prata oculta, como um manto a marcar um túmulo raso e ignoto, as conchas, a fala do rugido primordial do mar, a indomável força dos céus em chamas, a tempestade renovada, a única, que rasga as trevas da alma. O menino sentou-se, entre as conchas, com o choro, a raiva, o corpo ferido, o amor, a solidão, a sua vela acesa, o espelho, o seu sangue sacrificado e disse a palavra mágica, rebentou na boca o nome, a beber o sangue e a mãe veio, com a pele polida pela morte, tão branca, tão branca e pura, nos fetos iluminados, por todas as vielas em que uivaram os proscritos no meio dos cães expulsos, ela veio, a menina e a anciã, a meretriz e a santa, o demónio e a virgem, os olhos de prata mortal e abraçou-o no chão. O mestre e o discípulo são Um.



The Kingdom, 59.

Quinta-feira, Setembro 04, 2008

COM TALHERES


Modern Sleep 9, Gottfried Helnwein, 2004
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É um restaurante, mas é também uma estação internacional de comboios, um terminal de autocarros de longo curso perdido na noite e todas as esperas em todos os aeroportos do mundo, quando não temos antes nem depois, nos tornámos nómadas de nós mesmos e voltar é igual a partir. A minha vida acabou há muito e não me importei, fica-se vivo dentro da morte, uma singularidade adornada do estranho e do raro, que os amigos gostam de convidar para os aniversários, como o troféu de também terem vivido uma tarde e um sonho, com as filhas adolescentes de pestanas brilhantes e mãos de inocência adiada, as esposas de voz indolente de sono e tédio, os bonsais, a puericultura do kefir e os jipes na garagem, onde as unhas negras da tremente inteligência perversa arranham estofos na hora tardia e oportuna.
Não sei onde estou, é uma sensação de restaurante em que ninguém come, bebericam um café, fumam, olham, folheiam as páginas de jornais velhos, de revistas do Verão que finda, matam o tempo à espera que mude a estação e algo exista ainda do outro lado da fronteira dos calendários, com ilhas e palmeiras de papel. Os relógios. Olhos, próximos demais dos tectos, os relógios, o porvir sem tic tac de uma era das máquinas, os ponteiros que não há num inventário de amores fortuitos, uma encruzilhada de destinos pré-marcados, nenhuma caixa exígua num embrulho de laçarotes para dois corações.
O meu comboio. O teu comboio. Chegarei, antes que partas. Viajamos em autocarros do tempo diferentes, naufrágios de navios em mesinhas-de-cabeceira de auroras e crespúsculos, que aos lábios iludem serem gémeos o nascimento e a morte, em tubos aéreos que recusamos aceitar que sejam féretros, os rolos de nuvens nocturnas por viúvas e um funeral de paisagens rápidas, com regatos, pontes, jardins de um instante e lugares longínquos de ternura insuspeita com as janelas acesas.
Temos um segundo, apenas um segundo, um nada, um nada mais, um intervalo, mas tu vieste, a menina escoltada por lobos, as pequeninas flores roxas grávidas de vida, a cair pelos cabelos, os seios desnudos, os dedos longos afundados na fome de um abismo de tocar, a beleza num cofre com um tesouro de cerejas e manhãs, uma saga dos perfumes do mundo a polir num vendaval a pérola cegante da brancura da tua pele e disseste, Sou a tua amante desde sempre, procurei-te em cada noite dos meus dias, enquanto eu mexia a chávena da morte de mim na sala de espera da minha alma, sentado no banco de cemitério do último poente da minha carne.



Goth Land, 76.

Segunda-feira, Agosto 25, 2008

OS QUARTOS


On The Other Hand (Warsaw), Adam Kaczmarek, 2006

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§.Como corvos nas águas-furtadas altas, os quartos de um só são túmulos escuros onde vivem moribundos com sonhos.



Goth Land, 75.

Terça-feira, Agosto 19, 2008

VASO CELTA


Ophelia, John Everett Millais, 1852

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Dentro da cerâmica, a cisterna funda de verde
Paúl, como num sonho, lírios, luas, o esmalte
Antigo, com reflexos de astros nos olhos
Dos sapos, tão quietos, hieráticos, príncipes
Do chão que escutam o passar dos cavaleiros,
A velar o corpo da donzela morta, de vidro.



The Kingdom, 58.

Terça-feira, Agosto 12, 2008

A ESTRELA DE ADÃO


Baixa de Lisboa, Natal, Judah Benoliel, 1957
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O tempo, as cidades a ser as muralhas da morte, este cabaret ao ar livre, com as montras iluminadas, o afã das ruas, as mulheres, os homens, a juventude, o eros surdo das multidões, a fera na jaula, a tremenda falsidade de tudo, as ruas, as montras iluminadas, a mentira, a traição, a crueldade, o soco brutal do tempo como um único longo ululo dos eléctricos.
O tempo é a foice da eternidade, passei nestas ruas antes da vida que tenho, amei, sofri, fui. Porque retorna tudo? Porque são os homens punidos para sempre? Porque procuro o teu rosto morto? O cadáver da tua beleza? O amor condenado?
O mestre e o discípulo são Um, é a sombra que nos segue que desperta nos nossos passos, a que nos abre mais um labirinto de pedra, debaixo da vigília solitária dos candeeiros, com a esperança das mariposas a suicidar-se na alucinação da luz, a alma perdida e sem nome a gritar dentro da carne, o rosto eterno que somos a olhar o nosso rosto efémero do fundo de prata do vidro, por trás livros, ou maçãs, ou corpos desnudos, a treva em fogo que nos sustenta desde o abismo primeiro do pó, o sopro de vida atormentada que ergueu Adão da lama.



Lucifer's Kingdom 69.

Segunda-feira, Agosto 04, 2008

O MEU TECTO SÃO AS ESTRELAS


Yes I Am, Nina Kandelaki, 2006
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Na sombra, as ruas sem fim, o desabrigo, os valados
Do mundo são as veias de um monstro, vem a noite,
Fecham-se as janelas, ficam as persianas, frestas
De luz calma, com uma esperança dentro para quem
As vê de fora. Os donos da luz transformam-se
Nas muitas formas, rostos e pés da criatura negra
Deitada na escuridão, percorrem os recantos
Da cidade, usam máscaras de mãe e gritam de prazer,
Entre a dor e a fome. Ninguém conhece o nome
De Deus. Os meninos e as meninas aconchegam-se
No último reduto da luz, têm dedos de anjo, esperam
Que o dia abra, a chuva venha, que a flor que nasceu
No passeio ainda esteja vestida de roxo e branco.



Lucifer's Kingdom, 68.

Quinta-feira, Julho 31, 2008

O DISCÍPULO TRANSFORMA-SE NO FOGO


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Depois deste trilho em chamas nada restará de mim. O que fui não será mais, de tudo ficará como vestígio de ter vivido um ofertório de cinzas, ilegível, um sinal selado, um símbolo da morte. Não morrerei, a minha existência cessará enquanto sono, a minha carne ressurrecta em vida por fim terá olhos e viverei para além da última fronteira dos homens. Lamentarei apenas não ter conhecido o amor e não poder regressar para ver o teu rosto. O tamanho da luz que o discípulo rouba é o comprimento da lança que lhe trespassa o coração. Ninguém se liberta da dor, porque o fogo na treva, a pedra na prata, o cálice no sangue são a ferida do mundo. O que abraça a morte, vive; o que é beijado morre duas vezes e vivo ergue o Círio entre os mortos.



The Kingdom, 57.

Sábado, Julho 26, 2008

NOITE


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Gosto dos telhados, mais do que das ruelas, a noite deitada parece-me um domo antigo, com as estrelas a ser minaretes. A noite é a minha companhia, é uma amizade sagrada, em que recebo uma coroa, quando passeio sozinho, espectro sem destino entre as gentes que se divertem, no interior e à porta dos bares, e a sinto ao meu lado, por cima, dossel ondulante, entre os entes e as coisas, raíz do mundo, debaixo dos meus passos qual manto estendido e à minha frente como um mastim fiel. Acredito que a noite me protege, sei que me protege, desvia o mal do meu caminho e dá-me força para enfrentar a minha dor.
Vem, criança rápida que atravessa o mundo e o silencia e alimenta-se do meu sangue, porque a noite é a Morte, deusa antiga e sábia, que viu nascer os deuses e os homens e é impiedosa com a vaidade e a beleza. Afasta-me do convívio, do calor das mulheres, dos afãs do tempo, é ciumenta com os seus filhos, ergue-se sombra feroz na minha sombra, veste-me, penteia-me, acaricia-me o rosto quando desespero, quando estou triste, quando me sinto estrangeiro a tudo.
Sou um exilado entre os homens, um errante, um pária, vagabundo de cada fragmento da minha vida e da dos outros, hóspede em viagem de tudo o que me tem sido dado, o amor e o mel, as camas alheias, cânfora, ópio e perfume, e até da bondade, dos convites para jantar, da preocupação desinteressada. Toda a minha existência tenho sido um pedinte que não pede, um órfão de tudo e todos, de mim mesmo e das casas que me deram tecto e nunca me foram um lar. Saio para o negrume, vagueio e tantas vezes perco-me, não consigo encontrar o caminho de volta e abandono-me nalgum lugar, habitado ou ermo, com o frenesi da música ou o turbilhão do nada, entre olhares ou para além das luzes e espero que volte a memória de onde moro, sentado sobre o esquecimento, com as minhas mãos magras e trémulas pousadas – contigo, ó Mãe –, a noite sempre a abraçar-me, tão juntos, o seu hálito de veludo negro com odor a leite, morte, trigo, fim, chuva, infãncia perdida e recomeço.
Fico quieto, cadáver maquilhado com elegância vestido, dentro da sua presença real, com os ponteiros atónitos e hirtos dos relógios, as vozes longínquas das raparigas, a nuvem de devaneios da felicidade suposta e o lamento do alquimista Turco nas páginas desfeitas a confundir-se com a minha angústia: «Permitam, ó espíritos da noite, que os meus cabelos fiquem brancos, devolvam a velhice aos meus ossos e que a minha carne enfim conheça a morte e a minha alma descanse!».



Lucifer's Kingdom, 67.

Sábado, Julho 19, 2008

A NOITE DE PÃ


The Flame, Alfred Kubin, 1900
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Os touros perfuraram a noite espumando estrelas;
Dançavas nu com os pirilampos ébrios
Em equilíbrio pelos ramos.
Mais belo que Apolo deitaste-te sobre as mulheres
E Selene gemeu nas tempestades e nos caudais.



The Land, 49.

Quinta-feira, Julho 10, 2008

ANIREM A LISBOA *


Alfama, Lisboa, Sílvia Antunes, 2006
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ANIREM A LISBOA

Anirem a Lisboa
Pujarem al tramvia número 28
Passejarem pels carrers costeruts de l’Alfama
Caminarem vora el Teix fins a la Torre de Betlem
Visitarem el cenotafi de Pessoa
Ens prendrem un cafè a La Brasileira
Escoltarem fados al Faia
Contemplarem la posta des del mirador del Castell
Ens perdrem quan la nit esdevingui més fosca

Et cardaré pertot arreu
Et faré forats nous
Et beuràs a glopades la meva lleterada
Et deixaré senyals als indrets més secrets
Et xuclaré fins l’últim resquitx de l’ànima

Ens estimarem esbojarradament,
incomprensiblement,
irreversiblement
L’Amor se’n farà creus, de la nostra disbauxa
Escriurem els versos més eterns

Anirem a Lisboa
I mai més no tornarem


PARTIREMOS PARA LISBOA

Partiremos para Lisboa
No eléctrico número 28
Passearemos, pelas ruas íngremes de Alfama
Caminhadas à beira Tejo junto à Torre de Belém
Visitas ao túmulo de Pessoa
Um café n'A Brasileira
Fados no Faia escutaremos
A contemplação do poente no miradouro do Castelo
Perdidos, onde a noite se torna mais escura

Amar-te-ei por todos os lados
Te farei furos novos
Beberás o meu sumo em grandes hautos
Deixarei marcas nos teus recantos mais secretos
Sorver-te-ei ao mais ínfimo pedaço de alma

Nos amaremos como doidos
Incompreensivelmente
Irreversivelmente
O amor não se fará rogado do nosso deboche
Escreveremos os versos mais eternos

Partiremos para Lisboa
E não mais voltaremos


Antoni Ibañez Ros
Tradução de Lord of Erewhon

* Previamente publicado no blogue Nova Águia.



The Land, 48.

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Domingo, Julho 06, 2008

BARCELONA


Gotico, Lidmahe, Barcelona, 2007
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Para Antoni Ibañez Ros


Barcelona a febril, ao sol branco, depois
Negro, entre os roxos e rubros do oculto
Ocaso que desce, a alba de logo
Esperando sempre, porque o canto
Em terras catalãs é demorado, passar
De trovador, navegante e fado. As águas
Do mar Mediterrâneo levam, transparências,
Algas, ânforas, o grito da Aquitânia
Para o búzio de Gibraltar, ressoante,
Que para Sagres fala; erguem-se e bailam
As gestas, os campanários, os olhos
Amendoados das donzelas, exóticos
Mas terrenos, na festa sem fim
Dos bruxos e dos santos, casa, pão,
Papiro dos lustrais figos da obra,
Palmares do céu e raízes dos poços.
Ibéria, Catalunha, planície e cume;
Nenhures e aqui – do chão agrado algum
Amou mais os poetas, os doidos, os errantes.
.
***
BARCELONA

Barcelona l'ardorosa, al sol blanc, després
Negre, entre els morats i els vermells d'allò ocult
Capvespre que davalla, l'albada ulterior
Sempre esperant, perquè el cant
En terres catalanes és tranquil, pas
De trovadors, navegants i destins. Les aigües
De la mar Mediterrània porten transparències,
Algues, àmfores, el crit d'Aquitània
Per al cargol de Gibraltar que ressona,
Que a Sagres parla; s'aixequen i ballen
Les gestes, els campanars, els ulls
Ametllats de les donzelles, exòtics
Però terrenals, en la festa interminable
Dels bruixots i dels sants, casa, pa,
Papir de llustrosos replecs de l'obra,
Palmarès del cel i arrels dels pous.
Ibèria, Catalunya, planura i cim;
Enlloc i aquí – de la terra que de grat
Va estimar més els poetes, els boigs i els errabunds.

Tradução para Catalão de Antoni Ibañez Ros

Link: ENTRELLUM.


The Land, 47.

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Sábado, Junho 28, 2008

O QUE NÃO DESCANSA


A Ala dos Namorados, Jorge Colaço, 1922-27, painel de azulejos no Pavilhão Desportivo
Carlos Lopes,
em Lisboa








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A brancura que incendeia o espelho guarda o sangue derramado, protege os castelos do verdor escuro da corrupção dos dias, nas arribas, ofertada à violência vociferante do mar e ao lume sacral da tempestade. Folheei duas páginas, olhei para o simulacro da prata e para o quadro do Rei, com as lâminas que gritam no escuro tão hieráticas e egípcias como um perfil de galgo. A minha vida poderia ser melhor, poderia ter um oásis nos cabelos, água pura nos bolsos, o favor das mulheres e o esquecimento benigno do ópio e das tâmaras. Poderia entregar-me, que a noite de mim boa conta tomaria, Mãe antiga e amante, que perdoa, lava e beija os cadáveres sem nome. Poderia – mas cravei uma adaga no flanco, enquanto procuro o escudo nas areias, para que o meu único sono fosse a morte.



The Kingdom, 56.

Sábado, Junho 21, 2008

AO SÁBADO, NO TEU CEMITÉRIO


Night in Shangri-la I, Gottfried Helnwein, 1987
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Noites de água choca, o manto denso do ar a gemer quente, baixo no tear pétreo das vielas, quando saltos em grupo seguram pernas nuas. Estou encostado à parede do outro mundo das janelas, um espectro mais no espelho trémulo da noite soprada, sombra que se afasta do sujo colorido do muro, a aguarela negra e verde de uma mancha de humidade. Há uma pequena árvore, inclinada para o ângulo em que os passos do coração são um valado, um esgoto serpeante de beatas, linfa e copos partidos, caem vultos dos telhados, numa dança escura, o vento a tocar os ramos, não estivesse tudo quieto.
Não deveria ter sido assim, mas vês-me, não sou falador dentro da febre espessa, a névoa, estes reflexos, um rosto entre caveiras, os teus olhos de criança espantada, o roçar dos dedos, lâminas e canções, a tua língua move-se, ao meio do nada, um precipício de gente, símbolos, cópias, Deus ao pescoço, acho que conheço esta fábula. Nada tenho de importante para dizer e vou desfazer o teu vestido, despedaçar a tua alma, com um grito de urgência final.



Goth Land, 74.

Sexta-feira, Junho 13, 2008

ALENTEJO SEEN FROM THE TRAIN


Native Land 1948-1989, Jan Saudek, 1972





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ALENTEJO SEEN FROM THE TRAIN

Nothing with nothing around it
And a few trees in between
None of which very clearly green,
Where no river or flower pays a visit.
If there be a hell, I've found it,
For if ain't here, where the Devil it is?


ALENTEJO VISTO DO COMBOIO

Nenhuma coisa com nada em redor
E umas poucas árvores entre
Nem uma delas claramente verde,
Onde nem rio nem flor as visitam.
Se há um Inferno, encontrei-o,
Pois se não é aqui, onde Diabo seria?

Fernando Pessoa
Tradução de Lord of Erewhon



The Land, 46.

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Terça-feira, Junho 10, 2008

A INSÍGNIA *

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O menino pegou na espada do Cavaleiro morto, no escudo e no elmo, era um peso insuportável para uma criança, mas não podia abandonar o que era sagrado, as armas, a insígnia, não podia porque o Cavaleiro morto gritava dentro do seu coração e da sua alma e depois gritavam todos os do seu sangue que tombaram. É fácil o julgamento dos outros, mais rápido cair em desgraça, por amor ou por orgulho. Nada sabem os que estão fora da mesma carne.
O Cavaleiro lutou, sem temor, mesmo de joelhos, exangue da última pinga de espírito e força, lutava ainda. Não era um fanático, um louco, ou um suicida desesperado – era um Cavaleiro. Sabia que ainda que o chamassem traidor, ainda que lhe virassem o rosto, ainda que o seu nome ficasse manchado de desonra pelos tempos fora, ainda que do céu descessem anjos montados em esqueletos de cavalos, nunca teria medo, o seu valor seria sempre imorredouro, fundo e sangrante o sentiriam os poltrões que o enfrentavam no campo.
Fácil é o julgamento dos homens, mais rápido cair em desgraça, por amor ou por orgulho, e o Cavaleiro cumpria a lei mais alta a que o obrigava o dever, mesmo que dos erros da paixão nascido, era seu o menino escondido na cabana. Não há maior pátria do que a que corre de pai para filho.
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The Kingdom, 55.

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Quarta-feira, Junho 04, 2008

VULTURE


Study after Velazquez's Portrait of Pope Innocent X, Francis Bacon, 1953
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VULTURE

St. Thomas Aquinas thought
That vultures were lesbians
And fertilized by the wind.
If you seek the facts of life,
Papist intellectuals
Can be very misleading.


ABUTRE

São Tomás de Aquino pensou
Que os abutres eram lésbicos
E que o vento os fecundava.
Se procuras os factos da vida,
Os intelectuais papistas
Podem ser muito enganadores.

Kenneth Rexroth
Tradução de Lord of Erewhon



Lucifer's Kingdom, 66.

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Sábado, Maio 31, 2008

BRASIL, POR PÊRO VAZ DE CAMINHA *


Página da Carta de Pêro Vaz de Caminha, escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, a El Rei Dom Manuel I; original guardado inédito por dois séculos na Torre do Tombo (gav. 8, maç. 2, nº 8) e descoberto em 1773. Primeiro documento escrito no Brasil, é o marco fundador da literatura brasileira.


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As naus aproadas, Senhor, tive medo,
O meu coração, as minhas mãos, a alma
Tremiam-me, a minha coragem é a da pena
Não a das armas e do cordame. Um longe,
Primeiro, acima das vagas, e depois
Todas as maravilhas do mundo, o verde
Puro e alto, com o azul celeste, aberto,
Confundidos no calvário infernal do ar e
Aves, ou anjos, de amarelo forte alucinado
No assombro da visão rasgada. Toda a sede,
Toda a fome, toda a dor, se nos calou,
Senhor, naquele instante. Os batéis
Descidos à pressa, calma, homens mais
Não somos, chegados suplicantes, cristos
De carne e sal, vindos do sem pátria
Do terror das águas, a benção do fogo
Sobre nós caía, luz tanta, que do néscio
Nascia eloquência e virtude e levados
Fomos ao paraíso terreno, ao mais santo
Dos chãos. Desta praia, o que Vos damos,
Majestade, do penhor sereis Vós o reino,
O que Deus conservou só podem os reis
Servir, os homens amar, o engenho e a pena
Defender. Em boa razão Vos digo, Meu Rey,
Escrevo estas palavras no imo do eterno e
Do império da morte foi minhalma salva.
Se meus olhos a essa luz nossa, nem à terra
Regressarem, fui de Portugal filho, longe
Posso morrer, que o amor me é mortalha.

Lord of Erewhon,
aos 25 de Maio de 2008 deste Reino de Portugal


* Previamente publicado no blogue Nova Águia.
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The Land, 45.